quarta-feira, 23 de abril de 2014

Ciência e Religião em Crise de Identidade


Por Stanley L. Jaki

Tradução: Cristiano de Aquino e Wagner de Souza
Texto Original : http://goo.gl/Jaoiqr


      Há cerca de trezentos anos, não eram poucos os cientistas que falavam de ciência e religião unidas numa sagrada aliança. Dois séculos mais tarde, os teólogos escarneciam da guerra em que pareciam ambas eternamente empenhadas. Hoje, muitos teólogos e alguns cientistas referem-se à mútua relação entre ciência e religião, essas duas forças primordiais da vida humana.
     De ambos os lados, demasiadas vezes, foram oferecidos, em lugar de pormenores tangíveis, meros truísmos. Pode isto indicar uma falta de competência de ambos os lados. Atualmente, aqueles vulgares truísmos sugerem que uma crise de identidade se está apoderando da ciência assim como da religião, atingindo a um grau muito maior do que se pode imaginar.
      O aspecto religioso desta crise será facilmente diagnosticado mercê um simples exame dos programas de ensino oferecidos na maioria dos departamentos de religião e de estudos religiosos, bem como nos cursos de teologia e faculdades teológicas. A revelação do que, efetivamente, se passa nesses lugares pode facilmente pôr em evidência um aspecto típico da maioria deles. Sempre que é colocada uma questão, um gênero apenas de respostas é admitido. Mesmo o menor esforço em renunciar a este, em que se aceitam também posturas contraditórias​​, é repudiado como uma crítica. O resultado é a ascensão daquela igreja em que, parafraseando a observação de Chesterton, cada comungante está compartilhando a descrença do outro.
      Um retrato mordaz desta patética situação foi dado, a menos de um ano atrás, no livro The Search for God at Harvard escrito por Ari L. Goldman, repórter de religião do New York Times. Não foi decerto uma boa idéia, a do Sr. Goldman, passar um ano inteiro na Harvard Divinity School para, ali, procurar a Deus. Em realidade, a verdadeira ambição de Mr. Goldman não era Deus ou mesmo alguma experiência acerca dele. Esta busca resultaria, supondo que fosse bem sucedida, evidentemente, apenas num equívoco conceito de Deus, numa experiência religiosa sem realidade alguma.
    A categoria de experiências religiosas a que o Sr. Goldman se achou exposto nesta prestigiada escola de teologia, parece servir ao propósito de ocultar sua verdadeira identidade. Nada,absolutamente, mudou desde que William James, este "tão sábio" e lendário guru da religião, surgiu com a sua própria teoria sobre os tipos de experiência religiosa.
     Supôs Mr. Goldman, ainda na Harvard de William James, que ele não seria forçado a tomar a experiência religiosa Cristã como "a mais quimérica experiência" de seus primeiros dias na "Div School", como é, ali, chamada, num tom quase carinhoso: "Se acaso, em classe, fosse pronunciada uma única menção acerca da divindade de Jesus, desculpar-se-ia o professor aos não-cristãos." Não é, pois, de admirar que o Sr. Goldman visse suas expectativas despedaçadas ao supor, aí, encontrar alguma experiência religiosa que poderia identificar com a "antiga piedade cristã." Esta esteve sempre enraizada em dogmas claramente discerniveis, mas a atmosfera da Div School era de um "relativismo religioso" em que "parece não existir verdade religiosa", absolutamente. (2) O que não encontrou o Sr. Goldman nas salas de aula da Div School, também não pode encontrar em sua imponente capela. Durante seu expediente diário, que ele fielmente freqüentou, ou em suas breves espiadas na capela, entre as aulas, Goldman "Nunca viu ninguém de joelhos." Via, no máximo, "alguém sentado e meditando", mas isso não acontecia freqüentemente.(3)
      Evidentemente, a "Div School" de Harvard tinha de modo algum avançado para além do estado de coisas que dão também o tom na Universidade de Yale, tal como retratado, uma geração antes, em God and Man at Yale. Óbvio, este retrato só foi possível porque seu autor, W. F. Buckley, ofereceu-nos uma avaliação em termos de normas ou valores definitivos. (chamem-se dogmas ou não, é irrelevante, poder-se-iam igualmente chamar redes de pesca.) E se tinha alguma norma o Sr. Goldman, consistiam nas práticas judaicas ortodoxas as quais estava visceralmente ligado e de que nunca cuidou expor os fundamentos intelectuais definidos.
      Eis a razão pela qual estava dividido acerca do Catolicismo Romano. Por um lado, sentia-se atraído pela missa Por outro, não poderia ser a favor do Catolicismo dogmático. É difícil decidir-se quando se lamenta a situação atual do Catolicismo, tal como a percebia Goldman. Embora estivesse decepcionado com a perda, no seio sociedade, da autoridade moral da Igreja Católica, estava incerto quanto às suas causas, "a luta brutal acerca de autoridade entre Roma e a causa anti-aborto".(4)
   Apenas no caso de se estar pouco familiarizado com a duradoura incerteza dos Congregacionistas a propósito de sua própria identidade, é que se pode surpreender-se com esta absolutamente utópica identidade religiosa numa Escola de Teologia e numa universidade de origem Congregacional. A atmosfera doutrinária na Harvard Divinity School lembrou a Mr. Goldman um conciso resumo do protestantismo liberal que, há meio século, nos deu H. R. Niebuhr: "Um Deus sem ira trouxe homens sem pecado a um reino sem julgamento por meio do ministério dum Cristo sem cruz. "(5)
     Uma tal religião se não pode distinguir do judaísmo do Sr. Goldman, sem falar do judaísmo conservador ou reformado, exceto por seu vínculo às leis rituais. A todas estas denominações, pode-se livremente aplicar o emblema P.C. (politicamente correto), este eficacíssimo sedativo contra a necessidade premente de uma verdadeira identidade.
     A religião P.C. dificuldade alguma apresentará ao unir-se a ciência, embora esta relação não chegue senão a uma conveniente coexistência que pode ser principiada, encenada, concluída, retomada, e reinterpretada a curto prazo. Toda Coexistência é sempre uma dissimulação da verdadeira identidade numa relação... uma crise de identidade, em suma. O aspecto religioso desta coexistência pode apenas experimentar-se como sincretismo religioso. Assim, diferença alguma poderá ser invocada entre adoração da natureza e um culto imerso na realidade sobrenatural de um Criador livre para criar, ou não, o que denominamos Natureza, ou seja, o universo.
     Dentro desse sincretismo todas as formas de religião podem ser acomodadas. O politeísmo, com a adoração dos ídolos, não nos parecerá muito distante da adoração que proíbe a confecção de imagens e esculturas de Deus. E desde que, como no panteísmo, se fundem Deus e a natureza, não só não se reconhecerá a religião, mas mesmo a verdadeira identidade religiosa diminui a ponto de desaparecer. Em forma alguma de panteísmo houve lugar para que a imortalidade pessoal, que em si mesma fundamenta a identidade (e a própria religião) superior e a eleva acima das planícies do mero esteticismo.
       O Sincretismo, ou a abolição da verdadeira identidade religiosa, decerto está sujeito a uma forte dependência de verbalismo, que está em foco, por exemplo, quando o panteísmo apresenta-se sob o disfarce de panenteísmo, ou a idéia, em si mesma perfeitamente ortodoxa, de que Deus está em toda parte e em tudo . O Sincretismo, ou crise de identidade da religião, está amiúde oculto sob a nobreza de palavras como Ecumenismo, Consciência Global, Rearmamento Moral, para não falar de certos rótulos duvidosos como Gaia e Nova Era.
        O propalado "Cristianismo Simples", pela primeira vez proposto em 1675 por William Baxter, um divino Puritano farto de controvérsias religiosas, 6 era um sintoma de crise de identidade religiosa.Este sintoma ressurgiu quando, em 1943, C.S. Lewis ressuscitou a idéia de Baxter num livro, Cristianismo Puro e Simples, que tomou parte na história religiosa da segunda metade deste século.C. S. Lewis ofereceu-nos porém sua íntima compreensão quanto ao que era o Simples Cristianismo quando disse que a fé cristã "é o que é e sempre foi, desde muito antes de eu nascer, quer eu goste disso, quer não.." (7) Nenhuma luz adicional foi lançada sobre o assunto em sua ilusória definição da fé Cristã, em que pontifica: "que tem sido comum a quase todos os cristãos de todos os tempos."(8)
       Isto não significa que C. S. Lewis ignorasse que deixava de fora do "Cristianismo Simples" todos os itens controversos, a fim de chamar a atenção apenas os incontroversos. Mas estavam lá esses itens ou princípios? Não menos importante é a questão: mesmo se algum item houvesse, poderia ser discutidos durante algum tempo tempo sem trazer a tona questões não só controversas, mas também fundamentais para a articulação e defesa dos pontos comumente sustentados por quase todos os cristãos?
      Tudo isto rápido se dissipa desde que alguém levante a questão de saber se o "Simples" Cristianismo implica em milagres. Sem falar destes em seu Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis argumentou que eram parte integrante da proposta cristã.Caso contrário, não teria defendido sua possibilidade, e mesmo sua realidade, dos antigos ou modernos milagres, ante os Humeanos.(9)   No entanto, muitos cristãos, que propugnam por um Cristianismo limitado e restrito a seus princípios elementares, recusam-se a entestar com os milagres não bíblicos e que nos são mais próximos e muito mais fáceis de investigar. Não compreendem que a incredulidade acerca dos milagres pós-bíblicos é nociva à fé naqueles que se registram na bíblia.(10) Outros Cristãos preferem não falar de milagres, precisamente porque pretendem unir a ciência à religião, embora em termos prescritos pela interpretação fornecida pela maioria dos cientistas, que absolutamente não crê em milagres.
      Alguns defensores dos milagres bíblicos garantem sua validade apenas porque tomam a relatividade e a indeterminação da mecânica quântica na ponderação de sua possibilidade científica. Não percebem que, ao julgarem assim, suprimem os milagres, bem como a própria física relativística, que muito se baseia na estrita continuidade da matéria e para a qual, como memoravelmente admitiu Einstein uma vez, é o tempo um mero parâmetro de medições.(11) Parece que não estão seguros de si mesmos e das razões, nada científicas, porém notadamente filosóficas, sobre as quais podemos apenas confidencialmente falar de milagres, e fazê-lo com salutar desdém para com a ciência.
      É tampouco certo que sejam hoje unânimes os Cristão quanto a sua fé numa criação ex-nihilo. São muitos heterogêneos quanto a sua interpretação do primeiro capítulo do Gênesis. Muitas e variadas posições são tomadas ao acervo de lendas pré literárias interpretadas num sentido lamentavelmente literal, como é feito no criacionismo.(12) Comumente, os apologistas do criacionismo são responsáveis, tal se encobrissem suas próprias incertezas, por muito da incerteza de inúmeras conclusões científicas e da desconfiança de outros cientistas acerca deles.

     Por último, mas não menos importante, há a crença fundamental do cristianismo: a redenção em Cristo. Os Cristãos recém-convertidos amiúde nada suportam ouvir falar sobre as certezas conceituais e definições dogmáticas dos grandes debates cristológicos da Igreja primitiva. Mesmo dentro da proverbialmente dogmática Igreja Católica ouvem-se discursos a respeito de Cristo que inculcam a qualquer pensador coerente o rompimento com a fé que o faz crer em Cristo como o Filho unigênito de Deus. Muito recentemente um bispado anglicano foi outorgado ao Professor Régio de Teologia de Oxford cuja reputação acadêmica repousa sobre uma reabilitação programática de Ário (13).
      Mesmo Ário tinha Cristo numa mais alta conta e estima do que autores Católicos Romanos de duas recentes versões da vida de Cristo. Segundo uma delas, que protesta sua ortodoxia Católica Romana, Jesus pode ter sido um celibatário, mas decerto tinha irmãos e irmãs verdadeiros. Mas a identidade religiosa do autor torna-se muito duvidosa quando argumenta que, desde que nos fornece a erudição histórica apenas a evidência de que era Jesus um camponês judeu, sua divindade só se pode estabelecer pela fé. (14) O autor parece jubilosamente inconsciente do fato histórico de que esta dicotomia entre a evidência histórica ou "científica" e a fé foi uma fonte privilegiada da crise de identidade que deviam manifestar muitas das profissões de fé Cristãs.Está de fato posta em generalizada dúvida a própria identidade de Cristo entre aqueles teólogos Cristãos que dão ouvidos a "especialistas" nos pergaminhos de Qumran e que sustentam que o cristianismo, em sua mais antiga expressão, nada tinha de essencialmente novo que já não o tivesse o judaísmo da época (15).
         O sistemático aviltamento de Cristo na desonra de o demitir a níveis humanos cada vez mais baixos é, naturalmente, parte da circunspecta incerteza cultivada em torno do pecado. A genuína consciência cristã da realidade e severidade do pecado está, desde algumas décadas, sob crescente pressão para alinhar-se com as "novas" conjecturas sobre sua natureza. Uma delas é a perspectiva de que é o pecado uma enfermidade psicológica, outra consiste em não o descobrir em tudo. Para o pensamento moderno apenas há diversos padrões de comportamento. Por conseguinte, qualquer que seja este, uma vez que se torna um modelo, ou seja, uma vez que é assumido e vivido por um número estatisticamente significativo de pessoas, pode reivindicar sua aceitação social. Deste ponto, está apenas a um pequeno passo para exigir sua proteção legal e sua respeitabilidade moral, como se a moral estritamente correspondesse à mera legalidade.(16)
         A consciência Cristã (e Judaica) parece ter percorrido um longo caminho desde que se lia no livro do Êxodo este mandamento: "“Não levantarás um falso rumor... Não darás tua mão ao perverso para levantar um falso testemunho... Não seguirás o mau exemplo da multidão. Não deporás num processo, pondo-te do lado da maioria de maneira a perverter a justiça. "(Êx 23:1-2). Muitos cristãos dão a impressão de se terem afastado daqueles seus antepassados ​​que galhardamente aceitaram a verdade destas palavras: "Neste mundo terás aflições", porque "nenhum discípulo está acima de seu mestre". Entre os teólogos Cristãos são poucos e raríssimos os que tem um estilo com a mínima contundência de Tertuliano: "Cristo disse: "Eu sou a verdade". Não disse, "eu sou os costumes""(17) Muito mais numerosos são aqueles teólogos cujos "raciocínios" ilustram aquele mordaz comentário de Edmund Burke: "O costume reconcilia-nos com tudo".(18)
        É excelente ocasião, tão boa quanto outra qualquer, citar o Êxodo para dizer umas poucas palavras a propósito da desordem na qual estão imersos os Judeus de nossos tempos a respeito de sua religião. As opiniões vão desde um Sionismo literalmente militante à religião nenhuma. Pergunto-me se os Cristãos, que acreditam firmemente na imortalidade pessoal da alma e na ulterior ressurreição dos mortos, encontrariam entre os Judeus, exceto entro os mais ortodoxos, alguma simpatia. O conservadorismo Cultural, muito popular entre alguns Judeus norte-americanos, não é suficiente. Não o é, por certo, bastante para levar-nos a uma compensação sobrenatural às cruéis privações sofridas nesta vida. Que se não pode dar esta compensação foi o fundamento da objeção de Norman Podhorotz depois de meu pronunciamento em Moscou, em junho de 1989, antes de um encontro promovido pela Academia Soviética de Ciências e da Universidade de Moscou, acerca da fé na existência de Deus tal como corroborada pela ciência . Naquele pronunciamento, (19) referi-me também à fé como o único alicerce sobre o qual se pode pensar numa eventual compensação pelas atrozes tragédias da vida, cujo número é superior ao de uma legião.E ainda assim falava apenas das centenas de milhões de sofredores inocentes, sem dizer uma única palavra sobre aqueles - numerosíssimos - que nunca sofreram nesta vida de qualquer punição por crimes horríveis.
        Sobre as duas outras religiões, o Islamismo e o Budismo, ambas cada vez mais populares no Ocidente, algumas observações devem ser suficientes sobre a sua possível relação com a ciência. Sob o renascimento religioso Islâmico acha-se uma característica a custo notada por observadores ocidentais. Devido às exigências de industrialização, os países Islâmicos têm agora de, em larga escala, fornecer educação científica. Esta, por sua vez, confronta seu povo com os desafios do empirismo, do racionalismo e do positivismo. 
     O resultado é uma inquietação, sentida embora inda superficialmente, mas cuja verdadeira magnitude parecem perceber os clérigos Islâmicos. Haverá uma "recapitulação", inda mais dramática, do célebre debate medieval entre os muçulmanos místicos genuínos e os racionalistas, que são muçulmanos apenas de nome.
     Um milênio atrás, os principais místicos muçulmanos, como Al-Ashari e Al-Ghazzali defendiam que um recurso às leis da natureza era uma blasfêmia contra a onipotência de Alá. Os líderes Muçulmanos racionalistas, como Ibn-Sina (Avicena) e Ibn-Rushd (Averróis), argumentavam que o muçulmano verdadeiramente iluminado pode desfrutar da idéia da tripla verdade: A verdade menor, ou a verdade do catecismo, estava destinada para a população; a verdade média para os Imãs, que repetiam o Corão; e a mais alta expressão da verdade, a verdade da ciência, era privilégio dos iluminados. Estes, entretanto, para si mesmo guardavam esta terceira verdade, a fim de que não sofressem-lhe as conseqüências (20) O mundo Muçulmano medieval não encontrou um termo médio, quanto a fé e a razão, tal como o obtido pelos grandes mestres escolásticos pouco depois.Se os modernos intelectuais Muçulmanos poderão obter um satisfatório equilíbrio, ainda não o sabemos. Reconheceram melhor, entretanto, que uma crise de identidade religiosa está despontando sobre suas cabeças, uma crise nutrida pela ciência, ou melhor, pela impossibilidade de hoje se viver além de alguns minutos sem tomar partido desta ou aquela ferramenta científica.
      Como o budismo, suas inúmeras dissidências podem, por si mesmas, sugerir uma crônica crise de identidade religiosa. Tal crise tem atormentado a muitos dos jovens no Ocidente antes de sua conversão a religião Budista. De toda forma, e em sua clássica acepção, ambiciona o Budismo fornecer aos homens uma fuga de si mesmos. O Budismo dificilmente poderá furtar-se a suspeita de que oferece à crise de identidade religiosa uma cura que dela o priva. Em verdade, em todas as grandes exposições filosóficas do Budismo, como também nos vínculos que o unem ao Confucionismo e ao Taoismo, um lugar privilegiado é concedido à negação do que é conhecido, na lógica ocidental, como o princípio de identidade e de não-contradição(21). Não nos admira que tenha o Budismo recebido, pelos que na interpretação de Copenhague da Mecânica Quântica vêem a mais alta expressão do entendimento humano - posto que a tomam como a derradeira palavra da Ciência no domínio da física... Não nos admira, dizíamos, que tenha o budismo recebido uma muito simpática consideração.Para culturalmente tornar as coisas ainda pior, Niels Bohr emprestou seu prestígio científico para estabelecer o princípio da complementaridade como uma filosofia que melhor nos governaria na vida do que jamais o poderia ter feito a religião. (22)
     É o princípio de complementaridade parte integrante da interpretação de Copenhagen. Raríssimos são os livros e artigos, escritos por teólogos e cientistas, por vezes juntos, em que se registra com grande satisfação a natureza complementar da Ciência e da Religião, como são complementares os aspectos corpusculares e ondulatórios da matéria. 23 Esta alegação é decerto digna de algum exame mesmo dentro da perspectiva deste estudo.A alegação, na indefinição estudada, deixa a religião em questão. Uma cuidadosa leitura das obras filosóficas de Bohr, Schrodinger, Max Born, Heisenberg facilmente revelará uma convicção a todos comum: todos negam que o princípio de complementaridade autorize-nos a fazer um apelo racional à imortalidade, para não falar da revelação, a milagres, à ressurreição, a um julgamento e a uma recompensa, ou castigo eterno.(24) O princípio da complementaridade apenas autoriza uma religião que permanece reduzida a um puro esteticismo em que se se depara sempre com drásticas oscilações de humor, de estilos e com um perene desejo de contentamento que jamais se realiza.
        Mas o princípio de complementaridade, tomado por uma panacéia filosófica e religiosa, ou a cura para tudo, deixa até mesmo a ciência, isto é, a ciência da mecânica quântica, numa crise de identidade. Um vislumbre inestimável disto nos foi fornecido por ninguém menos que o falecido Professor Dirac. Ouviu-se algo acerca desta crise de identidade quando, na oportunidade da Jerusalem Centennial Einstein Conference, em 1979, o que disse Dirac foi solenemente ignorado pelo "establishment" científico e pelo seu principal aliado, ou talvez sua mais incômoda pedra no sapato, o "establishment" conhecido como "filósofos e historiadores da ciência". Disse Dirac naquela conferência: a mecânica quântica, tal como está hoje, terá de reformular-se ao longo das linhas de estrita previsibilidade como o exigia Einstein: "Eu acho que é muito provável, ou pelo menos muito possível que, a longo prazo, Einstein nos pareca mais correto, ainda que por ora aceitem os físicos a interpretação probabilística de Bohr, especialmente se têm eles de prestar algum exame. "(25)
         Evidentemente, este não é o tipo de coisa que seus adeptos a si mesmos e jubilosamente lembrariam, e muito menos aos seus alunos. Gostam os avestruzes de enterrar na areia a cabeça para não confrontarem a verdadeira natureza de sua situação. É isto precisamente o que fizeram os campeões da interpretação de Copenhague da mecânica quântica em relação a mais estimada análise de J.S. Bell, o famoso Teorema de Bell. Por um lado, não esqueceram este famoso teorema, o que os levou à conclusão final de que, finalmente, tudo é acidental. Entretanto, tudo o que fez Bell foi mostrar que as estatísticas quânticas são melhores que as estatísticas clássicas ao lidar com um certo gênero de coincidência nas emissões radioativas. Dois anos depois, ao encontrar alguns sutis paralogismos na "redução dos pacotes de ondas," questão crucial na mecânica quântica teórica, sentiu-se Bell impelido a concluir que esta "carrega em si as sementes de sua destruição." (26) Os físicos e filósofos da física devem ainda mais detidamente atentar a esta profunda conclusão de Bell. Ao tomá-la em consideração costumam exibir um toque de nervosismo, tal como transparece na refinadíssima refutação à afirmação de Bell por K. Gottfried.(27) Os teólogos que permanecem integrando sua disciplina com a mecânica quântica devem atender a isto.Inconscientemente, podem provocar sua própria ruína: última forma da crise de identidade.
        Muito se tem dito sobre a crise de identidade que assediava aos físicos até o final do XIX século. Muito menos cogitados são os primeiros traços dessa crise. Há mais do que se pode ver no aparentemente inocente "Principia" de Newton. Ele não contém um único parágrafo sobre as questões filosófico-metodológicas levantadas pelo fato de que escrevera não apenas um Principia, que em si mesma nada significa, mas uma Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Seria vão interrogar Newton acerca do que quis dizer com natureza, filosofia, e mesmo matemática.
      Newton não estava absolutamente seguro de si mesmo como físico. Caso contrário, não dispensaria preciosas horas em apagar de seus manuscritos as referências a Descartes, a fim de que não suspeitasse a posteridade de que devia algo ao francês. Não nos admira isto. Os cartesianos em França receberam os Principia com a observação de que entre suas muitas qualidades não estava a física (28). Então em que consistia? Certamente não numa física mecanicista na proporção em que esta importa modelos mecanicistas, dos quais o Principia não dá um único testemunho.Só algum tempo depois foram acrescentados, e em grande número, no arcabouço matemático dos Principia, que, por seu turno, inaugurou a era do cálculo infinitesimal.
        Não obstante não tenha a rigorosa prova dos "limites" sido obtida senão no início do XIX século, o cálculo infinitesimal de Newton foi tomado como algo absolutamente demonstrado, sem um único vestígio de crise. O próximo livro cientificamente momentoso em que se registra a palavra Principia em seu título, foi publicado em 1910 sob o título, Principia Mathematica. (29) Não encerra uma retratação de seu co-autor, Bertrand Russell, acerca de sua definição anterior das matemáticas como "o assunto do qual nunca sabemos do que estamos dizendo, tampouco se o que dizemos é verdade. "(30) Mais tarde, Bertrand Russell definiu este agnosticismo matemático, dizendo apenas que a física "é matemática não porque sabemos muito sobre o mundo físico, mas porque sabemos muito pouco, e tão somente suas propriedades matemáticas é que podemos descobrir. "(31)
       Esta advertência de Russell deve bastar àqueles que cultivam outros ramos da ciência física, especialmente os vários ramos das ciências da vida.Dentre todas as investigações empíricas a mais exata, a Física é ardentemente imitada por outras do mesmo gênero. O cultores destas últimas podem sofrer dalguma crise de identidade em razão de as ofuscar sua grande e elegante irmã. Ademais, esta observação, se suficientemente ponderada, pode mesmo chamar à ordem os vários cultores das ciências humanas. Toda vez que psicólogos, sociólogos ou historiadores tentam tomar a física como modelo, e muitos o fazem, revelam apenas os sintomas duma crise de identidade.(32)
      Se é isto verdadeiro para os filósofos, quem dizer dos teólogos?! O programa duma suposta filosofia científica é um modismo bastante antigo que teve adeptos da envergadura dum Descartes, dum Hobbes, dum Hume, dum Kant e dum Comte, e produziu apenas sistemas sem credibilidade alguma. Já o modismo de uma teologia "científica" é bastante novo. Produziram-se enormes tratados sobre a teologia do mundo, sem um único parágrafo sobre esse mundo que é o universo.(33) Pode-se também citar muitos livros em cujos títulos brilham palavras como "conhecimento" e "método" , embora sem uma exata orientação quanto ao que qualificam por conhecimento e em que consiste o verdadeiro método.(34)   Quisera Deus que tais teólogos pretendessem nada mais que oferecer um discurso racional bem argumentado! Nem a filosofia, tampouco a teologia é, ou pode ser, uma ciência tal como o é a física, ambas devem, porém, ser eminentemente racionais, isto é, bem-fundamentadas, em lugar de submergirem em intermináveis cadeias ​​de vagas metáforas e novos e desnecessários chavões.
       Contemplando sua própria disciplina como um discurso que exige maior atenção, clareza e consistência, os teólogos iriam descobrir uma coisa curiosa sobre a ciência e os cientistas e, em particular, sobre a física. Até cerca de uma centena de anos atrás, os físicos estavam, ou assim se os via, estabelecidos com segurança em suas convicções. James Clerk Maxwell caracterizou esta situação, quando, em 1870, descreveu a Royal Society como "a companhia daqueles homens que, aspirando a nobres fins ... puseram-se acima das regiões da tempestade, num ambiente mais claro, onde não se corrompe a opinião, nem há ambigüidade de expressão, mas onde uma mente entra em contato com a outra no ponto onde ambas chegam o mais próximo da verdade. "(35) 
      Um quarto de século mais tarde, a teoria eletromagnética de Maxwell parecia tão legítima quanto o era a definição do universo de Nicolau de Cusa: "seu centro está em toda parte, e a circunferência em parte alguma". É este o fundamento da famosa observação de Hertz: "A teoria de Maxwell são as equações de Maxwell."(36)   Em outras palavras: ninguém realmente sabia qual era a verdadeira identidade dessas equações ou desta teoria. A definição de Hertz insinua, redundantemente, que se tratava de uma crise de identidade. Hoje, na era da Teoria das Cordas, das oscilações de ponto zero, dos universos embriões e outras mais, é ainda mais difícil determinar as relações de identidade de muitos dos aspectos das mais bem sucedidas teorias físicas com a realidade.
      Mas a verdadeira crise de identidade da ciência está noutro lugar. Não quer isto dizer que nas ciências empíricas, mesmo fora da física, se não há de encontrar monumentais vestígios de crise de identidade, mesmo nos dias que correm. A Biologia Evolutiva tem ainda de chegar a um acordo acerca de dois severos abalos de que foram vítimas muitos de seus cultores quando fora de suas bem-aventuradas posições. Um deles foi a percepção, muito recente, de que a teoria da origem da vida proposta por S. L. Miller em 1952 não consegue lidar com as altas temperaturas que certamente prevaleceram sobre a terra primitiva a 3 ou 4 bilhões de anos atrás.(37) O outro é a evidência das grandes catástrofes a que está exposta a Terra a cada 26 milhões de anos ou mais, algumas das quais resultam em substanciais extinções de todas as formas de vida(38). A crise de identidade que resultou disso demonstra-se pela chamada teoria do equilíbrio pontual do desenvolvimento evolutivo.Num encontro nacional de seus adeptos, o nível de probidade estava posto de tal modo a levar um de seus participantes à observação de que encontraria mais honestidade intelectual em um encontro nacional de revendedores de carros de segunda mão.(39)
      Mas a real fonte de crise de identidade na ciência hoje não está em seus problemas internos, os quais provavelmente se esgotam nunca. Quem nos pode assegurar de que as décadas e séculos vindouros não nos oferecerão mais surpreendentes descobertas, totalmente inimagináveis ​​hoje em dia? A verdadeira fonte dessa crise de identidade está no fato de que os cientistas, em considerável grau, deixaram de ser os porta-vozes oficiais daquilo de que trata a ciência. A imagem que da ciência entretém a sociedade em geral, e mesmo a que se cultiva dentro dos círculos acadêmicos, é agora determinada tanto, se não mais, pelo que dizem sobre ela os filósofos e historiadores de ciência, quanto por meros escritores de vulgarização.
     A mudança parece enorme. Em cem anos, escreveu-se relativamente pouco sobre a filosofia da ciência. Os autores de tais livros ou eram filósofos com pouca formação científica, ou cientistas com pouca familiaridade em filosofia. William Whewell, em 1830, foi o primeiro homem de ciência proeminente a escrever um livro circunspecto sobre filosofia da ciência e ele não foi imitado até que por volta de 1900 surgissem Ernst Mach, Pierre Duhem, e Henri Poincaré.
    A partir de 1920 houve um rápido aumento do número de eminentes cientistas que escreveram livros sobre filosofia da ciência. Para falar apenas de físicos, pode-se lembrar os nomes de James Jeans, Eddington, Bohr, Born, De Broglie, Margenau, Whittaker, Schrodinger, Heisenberg e, mais recentemente, Feynman. Mas os livros que realmente dão-nos a imagem "oficial" da ciência foram escritos por filósofos, às vezes com formação em física, embora às vezes sem essa formação. Moritz Schlick não era um físico, nem Karl Popper, nem Hans Reichenbach, e nem Herbert Feigl. Embora Thomas Kuhn tivesse formação completa em física, isso não se aplica a Lakatos e Feyerabend. No entanto, foi isso que, em nossa cultura, disseminou a ideia de que a ciência está intrinsecamente incerta sobre si mesma. O que pode tal espécie de incerteza ser senão uma crise de identidade, e crônica?
       Nenhum grande verbete sobre a ciência oferecido por filósofos às principais enciclopédias nos poderia dar uma justa convicção acerca do que realmente ela é. Há ainda, em derredor, alguns sombrios adeptos da indução, bem como alguns sonhadores platônico. Os Positivistas clássicos, no estilo de Auguste Comte, são poucos e distantes entre si, mas o número de adeptos de Mach é grande, embora um pequeno número deles esposem honestamente o sensacionalismo de Mach que o levou, em fim, a abraçar o budismo.(40)   A maioria endossaria uma acepção qualquer da ciência com base no modelo hipotético-dedutivo.No entanto, as divergências de opinião abundam tão logo se chega à arte de construir hipóteses e ao problema da legitimidade das deduções. Com exceção de Duhem, que era um realista e estabeleceu o senso comum como o único ponto de partida honesto,(41)   sentiriam todos um desprezo pela famosa definição de ciência de T. H. Huxley como "o senso comum treinado e organizado.(42)
       Muitos filósofos da ciência oferecem explicações científicas que beiram ao absurdo. É este o caso quando é ela tomada como um exercício de falsificação. Mas, se tudo o que pode a ciência fazer é falsificar conclusões, não só a identidade destas está em jogo, mas sua própria identidade. Isto deve parecer uma conclusão inevitável, a menos que seja negada a liberdade de ver o caráter contraditório da alegação: apenas essas afirmações tem um genuíno conteúdo falseável, embora esta verdade seja imune à prova de falseabilidade(43) Se a ciência é uma série de imagens, de "themata", de programas de pesquisa,(44)   o que vai garantir que eles se fundem em uma imagem, um "thema", um programa que pode ser identificada com segurança?Que a idéia de ciência como um empreendimento anárquico(45)   tenha encontrado devotos, é sintomático da crise de identidade que dá lugar aos anarquistas, intelectuais ou não.Que a ciência tenha também sido tomada como um jogo, muito inteligente, é claro, é característico das últimas décadas, quando muitos acadêmicos jovens iam muito bem até perderem de vista não só a identidade de seus respectivos assuntos, mas sua própria auto-identidade como seres humanos responsáveis.
      Intelectualmente muito traiçoeiro é o caso quando a ciência é identificada com uma grande palavra que todo mundo usa e ninguém define.Além disso, é óbvio que, se a ciência é uma cadeia interminável de revoluções, esta proposição contém sua própria refutação, porque é oferecida como insuscetível ao tipo de mudança que é a revolução, entendida como revolta radical. Ou devemos deixar a alguns filósofos da ciência ater as duas coisas, ou seja, confiar fortemente em palavras abstrusas e serem cautelosos sobre o que eles querem dizer com isso? Aqueles que falam constantemente de revoluções científicas devem ser francos se pretendem significar mais do que está implícito na frase francesa, "plus ca change, plus ça reste la meme chose ", que é, possivelmente, a melhor descrição de todas as revoluções políticas.
      A frase tem uma profundidade filosófica quase nunca notada. Essa profundidade estava algo dissimulada quando o grande apóstolo das revoluções científicas, T. S. Kuhn, inverteu seus traços revolucionários e invocou o princípio de tensão essencial,(46) como se a metafísica pudesse ser readmitida pela porta dos fundos.E, ainda que permitisse à metafísica sua volta aos palcos, Kuhn concedeu-lhe não mais do que o papel de um mero coadjuvante, senão um complemento inapto para o jogo fascinante da ciência.
     No entanto, é a metafísica mesmo o ponto a partir do qual qualquer esforço intelectual precisa ser experimentado. Mesmo a palavra metafísica indica que nada se lhe justapõem. Nesse caso, Aristóteles poderia tê-la denominado "para-física" e deixado de lado como algo que significasse nada mais que um paralogismo. Aristóteles simpatizaria, pois, com aquela frase francesa. Toda a sua filosofia repousava sobre sua árdua lide com o problema da identidade através da mudança - salvaguarda da sanidade do intelecto humano.
        É também a salvaguarda da sanidade da ciência. Apenas se as mudanças forem de tal forma a deixar de algum modo intacta a uniformidade das coisas em mutação, haverá base para falar de ciência sem crise de identidade, para que a ciência lide com as coisas em movimento, ou mudança, e tenha uma importante participação na possibilidade de que suas observações e conclusões transcendam a verdade do momento.
        Os pesquisadores simpatizariam totalmente. São também aqueles que de algum modo entendem que todas as asserções sofisticadas sobre ciência em grande parte da filosofia da ciência moderna só fazem fomentar e promover o mal-estar que é percebido crise de identidade. É esse mal-estar que, experimentado por pesquisadores, uma vez ou outra, põe os estudos sobre a história da ciência na lista negra.(47)   A história tem sido sempre o terreno de caça favorito de céticos e zombadores.Beneficiam-se da observação perspicaz de Chesterton de que a história é tão rica em dados que se pode fazer "de qualquer rumo no avanço ou no retrocesso um caso de consciência."(48)
       A crise de identidade da ciência, na medida em que se não tenha transformado numa ideologia pela ação de filósofos e historiadores e de cientistas no seu velho verniz filosófico, é muito menos grave do que pode parecer. A razão disto está na segunda observação de Bertrand Russell, citada acima. Esta chama a atenção para uma limitação radical da ciência e da física em particular. A Física nada sabe quanto sabe muitíssimo sobre o mundo material, porque ela só pode conhecer suas propriedades quantitativas. A ciência envolve-se numa crise de identidade apenas quando ignora o seu próprio método ou quando permite que os filósofos, ávidos por promover seu agnosticismos e subjetivismo, assumem-se como porta-vozes da ciência.
        Ao passo que a cura para a crise de identidade da ciência parecer relativamente simples, a cura para a crise de identidade da religião é um assunto muito mais sério. De qualquer forma, todo teólogo que fale sobre a relação entre ciência e religião deve primeiro ser claro quanto a que religião pertence. O filósofo deve fazer o mesmo e assumir as conseqüências. Parece-me que a arte da camuflagem, para não dizer o mero camaleonismo, não está isenta do mandamento que proíbe as mentiras. A crise de identidade só pode ter a sua cura num total compromisso com as palavras: "A Verdade vos libertará". É preciso primeiro identificar e remover uma grande pilha de detritos, a fim de ver a a complexa e nuançada verdade acerca da relação entre religião e ciência e sua interação permanente.
        A interação só faz sentido entre itens distintos, fatores ou entidades. A distinção, por sua vez, pode ser múltipla. Algumas formas parecem impor-se por si mesmas, outras podem impacientar os fabricantes de sistemas proverbiais que estão determinados em obter a síntese do todo no tudo e preparando o palco para infernos intelectuais. Por menos que aceitemos, o domínio fundamental do é - ou a simples existência, sem mencionar o domínio do deve, ou domínio dos valores morais - não pode ser reduzido ao muito mais banal e útil das relações puramente quantitativas, o da ciência.O domínio do conhecimento unitário, na medida em que isso significa um conhecimento limitado, pertence ao da Utopia na terra, que não é o domínio dos anjos.
      O único tipo de conhecimento unitário sobre o qual o homem pode proveitosamente especular é o conhecimento dos anjos. Infelizmente, os teólogos modernos estão mais relutantes em enfrentar o assunto. No entanto, ao discutir o assunto, estariam aptos a dizer aos homens modernos (que desde Descartes tem tentado alcançar os anjos) (49) que o homem simples deve implementar sua vida cognitiva em termos de domínios conceituais mutuamente irredutíveis.
      Para dizer de forma jocosa, talvez um pouco blasfema, mas certamente contundente: os domínios que Deus separou, o homem não deve tentar unir em um único. A resultante não será uma síntese, nem mesmo uma fusão, mas uma confusão. E esta é por demais evidente nas múltiplas manifestações da crise de identidade real e percebida que há algum tempo tem assolado a ciência, bem como a religião. Tenho falado muito sobre o diagnóstico, relativamente pouco sobre os remédios, e quase nada sobre um estado saudável, porque uma cura eficaz depende fortemente de um diagnóstico completo e o mais realista possível.


Notas Finais

1 Esta é uma forma ampliada duma palestra proferida em fevereiro de 1991, como parte do programa de Ciência, Tecnologia e Ideias Religiosas da Universidade de Kentucky.

2 AL Goldman, The Search for God at Harvard (New York: Random House, 1991), p. 43.

3 Ibid., p. 44.

4 Ibid., p. 276.

5 H. Richard Niebuhr, The Kingdom of God in America (New York: Harper and Row, 1937), p. 193.Também neste caso, o vácuo que se seguiu teve que ser preenchido: "As harpas de ouro dos santos [devotos do Cristianismo liberal] foram substituídas pelos rádios; as asas angelicais, pelas estradas de concreto e carros de alta potência; e o descanso celeste é agora chamado de lazer" ( p. 196 Isso foi, é claro, antes da idade comercialmente "dourada" da TV, VCR e CDR, para não falar da "erva" e da religião psicodélica, que tinha chegado ao redor.

6 A "simples religião" de Baxter era uma plataforma que já aos seus mais sensíveis contemporâneos parecia algo que "poderia um papista ou sociniano subscrever". Veja o artigo, "Baxter, Richard", em Encyclopedia Britannica, edição de 1991.

7 C.S. Lewis, Mere Christianity (New York: Macmillan, 1952), p. vii.

8 Citado por M. Nelson em "C. S. Lewis, Gone but Hardly Forgotten," New York Times, novembro 22, 1988, p. 27.

9 C. S. Lewis, Miracles: A Preliminary Study (London: Geoffrey Bles, 1947).

10 Vejam meu livro, Miracles and Physics (Front Royal, VA: Christendom Press, 1989).

11 Einstein o disse ao longo das questões que lhe dirigiram acerca de Bergson, na Sorbonne, em abril de 1922. Veja em Bulletin de la Société française de philosophie 17 (1922), p. 107.

12 Para mais detalhes, consulte meu Genesis 1 through the Ages (New York: Wethersfield Institute, 1992), texto ampliado de oito palestras ministradas em Nova York, sob o patrocínio do Instituto Wethersfield, no final de abril e início de maio de 1992.

13 R. Williams, Arius: Heresy and Tradition (London: Darton Longman and Todd, 1987).

14 J. P. Meier, A Marginal Jew (New York: Doubleday, 1991).O outro livro, The Historical Jesus (New York: Collins, 1991), foi escrito por JD Crossan.

15 Perguntamo-nos o que se ganha, do lado Judeu, com a alegação, a mais memorável feita neste século, feita pelo rabino J. Klausner, de que todos os princípios éticos e religiosos dos Evangelhos ocorrem nos escritos judaicos iniciais. Qualquer que seja a crise de identidade que, logicamente, resulta duma tal afirmação, é impossível identificar o judaísmo como uma religião universal. Isto é o que Klausner involuntariamente admitiu, além disto destruindo sua sua afirmação de que Jesus nada de novo oferecia no caminho da ética e da religião, quando escreveu: "Jesus veio e desprezou todas as exigências da vida nacional..." Em seu lugar, ele estabeleceu nada mais que um sistema ético-religioso ligado à sua concepção de divindade. " Jesus of Nazareth: His Life, Times and Teaching trad. a partir do original hebraico por H. Danby (New York: Macmillan, 1926), p. 390.Mas se a sua concepção da Divindade nada entende com os princípios religiosos e éticos, qual é a sua fonte? Sua afiliação nacional ou racial?

16 Um tópico discutido no meu artigo, "Patterns versus Principles: The Pseudoscientific Roots of Law's Debacle," The American Journal of Jurisprudence 38 (1993), pp 135-57.

17 Foi com esta frase que São Toríbio, o famoso arcebispo de Lima (1538-1606), rebateu os conquistadores ávidos por ouro, que tentaram justificar seus maus caminhos, invocando a "tradição". Veja em Butler's Lives of Saints (New York: P. J. Kennedy and Sons, 1962), vol. 2, p.167 A frase é plenamente aplicável a muitos capitães do capitalismo e do neo-capitalismo.

18 E. Burke, A Philosophical Inquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful (New York: Harper and Brothers, 1844), p. 185 (Pt.IV, sec. xviii).

19 "Sushchestvnet li Sozdatel?" em Obshchestvennye nauki Akademiia nauk SSSR Moscow 6 (1990), pp 170-180.

20 Para mais detalhes veja cap. 9, "Delay in Detour", de meu livro, Science and Creation: From Eternal Cycles to an Oscillating Universe (2d ed:. Edinburgh: Scottish Academic Press, 1987).

21 Tal como pode ser observado na metódica identificação da mecânica quântica com as filosofias orientais como F. Capra em O Tao da Física, publicado pela primeira vez em 1975.Para obter uma lista das impiedosas críticas às afirmações de Capra, veja E. R. Scerri em "Eastern Mysticism and the Alleged Parallels with Physics," American Journal of Physics 57 (agosto de 1989), pp 687-92.

22 Para suas palavras exatas, gravadas por um confidente dele, veja meu livro, God and the Cosmologists (Edinburgh: Scottish Academic Press, 1989), p. 221.

23 Por exemplo, J. Honner, em "Unity-in-Difference: Karl Rahner and Niels Bohr" Theological Studies 46 (1985), pp 480-94.

24 As principais biografias recentes de Schrodinger, Dirac e Heisenberg são particularmente reveladoras a este respeito.

25 Conforme relatado por R. Resnick, um participante dessa Conferência, em seu "Misconceptions about Einstein: His Work and His Views," Journal of Chemical Education 52 (1980), p. 860.

26 J. S. Bell, "The Moral Aspect of Quantum Mechanics" (1966), reeditado em seu Speakable e Unspeakable em Quantum Mechanics (Cambridge: Cambridge University Press, 1988), p. 27.

27 K. Gottfried: "Does Quantum Mechanics Carry the Seeds of Its Own Destruction?" Physics World 4 (Outubro de 1991), pp 34-40.O Prof Gottfried discutiu o mesmo em uma palestra proferida em 27 de fevereiro deste ano, na Rockefeller University.

28 Assim, o revisor anônimo da Principia que escreveu para o prestigiado "Journal des Scavans", acrescentou um elogio ao trabalho de Newton louvando-o como "a mecânica mais perfeita que podemos imaginar", com o desejo de que ele o coroasse "dando-nos uma física tão exata como a mecânica".Veja em E. J. Aiton, The Vortex Theory of Planetary Motion ( (London: Macdonald, 1972), p. 114.

29 Por A. N. Whitehead e B. Russell, é claro.

30 Russell, "Recent Work on the Principles of Mathematics," The International Monthly 4 (1901), p. 84.

31 B. Russell, Philosophy (New York: Norton, 1927), p. 157.

32 Algo de patológico pode entrever-se quando um proeminente historiador dos antecedentes da Guerra Civil americana alega que nada será realmente conhecido acerca de suas verdadeiras causas até que o registro de votação completa do Congresso, a partir dos últimos trinta anos, tenha sido avaliada por um computador. Para mais detalhes veja meu artigo, "History of Science and Science in History,", Intercollegiate Review 28 (Fall 1993), pp 20-33.

33 Isto é particularmente verdade para os chamados Tomistas transcendentais. Para mais detalhes, consulte o meu Pere Marquette Lecture 1992, Universe and Creed (Milwaukee: Marquette University Press, 1992).

34 Estou, naturalmente, referindo-me a B. Lonergan.

35 J. C. Maxwell, "Introductory Lecture on Experimental Physics", em seu The Scientific Papers of James Clerk Maxwell, ed.W. D. Niven (Cambridge: Cambridge University Press, 1890), vol. 2, p. 252

36 H. Hertz, Eletric Waves tr.D. E. Jones (1893: New York: Dover, 1962), p. 21.

37 Na verdade, como mostra N. R. Pace, "Origins of Life: Facing up to Physical Setting," Cell (17 de Maio, 1991), pp 531-33, a mera presença da água pode ser destrutiva no processo defendido por Miller.Veja também o relatório de M. W. Browne sobre o artigo de Pace no New York Times, 18 de Junho de 1991, seção C1.

38 O primeiro estudo sistemático é o artigo de D. M. Raup e J. J. Sepkoski Jr, "Periodicity of Extinctions in the Geologic Past," Proceedings of the National Academy of Sciences 81 (1984), pp 801-05.

39 Relatado em Newsweek 8 de abril de 1985, p. 80.

40 Para detalhes, ver cap. 8, "Mach and Buddhism," no J. T. Blackmore, Ernst Mach: His Life, Work, and Influence (Berkeley: University of California Press, 1972).

41 Para maiores detalhes, veja meu trabalho, Uneasy Genius: The Life and Work of Pierre Duhem (Dordrecht: Martinus Nijhoff, 1984), p. 321.

42 T. H. Huxley, "On the Educational Value of the Natural History Sciences" (1854), em seu Science and Education. Essays (London: Macmillan, 1899), p. 45.

43 A inconsistência faz eco ao que está contido no ditado memorável de Comte: Tudo é relativo e esta é a única verdade absoluta.

44 Aspectos promovidos por Holton, Lakatos, Elkana e outros. Para mais detalhes, consulte minhas palestras em Gifford, The Road Science and the Ways to God (Chicago: University of Chicago Press, 1978), pp 235-36.

45 Muitas destas reflexões estão contidas nos próprios títulos de alguns livros de P. Feyerabend, como o Against Method: Outline of an Anarchistic Theory of Knowledge (Rev. ed., London: Verso, 1988) e Farewell to Reason (London: Verso, 1987).Curiosamente, ele não notou que qualquer argumentação em prol da anarquia tem que ser anti-anárquica, a fim de fazer sentido.

46 Significativamente, em seu The Essential Tension (Chicago: University of Chicago Press, 1977), Kuhn falhou ao explicar o que ele quis dizer por metafísica ou mesmo por essência.O livro pode em verdade, produzir considerável tensão em qualquer leitor que aprecia a lógica.

47 Veja S. C. Brush, "Should the History of Science Be Rated X?" Science 183 (1974), pp 164-72 1.

48 G. K. Chesterton, All Things Considered (New York: John Lane, 1909), p. 221.

49 Para detalhes, ver cap. 1. "Fallen Angel", em meu livro. Angels, Apes and Men (La Salle, IL: Sherwood Sugden, 1983).




     Stanley L. Jaki é um sacerdote beneditino húngaro, com doutorado em teologia e física. Autor de mais de trinta livros, Padre Jaki é membro honorário da Academia Pontifícia de Ciências e ganhador do Prêmio Templeton de 1987.

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